terça-feira, 30 de novembro de 2010

Castelo de Castelo Branco

Poderão confirmar pela leitura da cronologia, que aquilo que sinto actualmente pelas gentes de Castelo Branco é mais do que justificado: uns pusilâmes, medrosos e ingratos.



Enquadramento
Localizado num esporão granítico a uma altitude de 470 m., no Cerro da Cardoza. Para SE., domina.se a Serra de Monforte, a N., as da Gardunha e Estrela; a E., a fronteira e a NE., Idanha-a-Nova. Próximo localiza-se a casa n.º 92 da R. D'Ega , a Igreja de Santa Maria do Castelo, bem como a Casa dos Romeiros.

Descrição
Do castelo resta um troço da muralha, orientado, com adarve que liga uma torre do sistema defensivo da alcáçova e a torre de menagem do antigo palácio dos comendadores. A torre defensiva é de planta quadrangular e acede-se ao seu interior por uma escadaria. A torre que pertencia ao paço quinhentista é de planta rectangular e ameada. A fachada voltada a O. está praticamente destruída. A fachada orientada com duas janelas de balcão, uma no primeiro piso e outra no segundo, sendo esta geminada com arco em querena sobre moldura chanfrada *1. Na fachada voltada a N., uma janela no segundo piso com lintel recto e arco em querena. Recentemente foi colocada ao nível do segundo piso estrutura metálica à cota do pavimento que existiria. No interior do perímetro das muralhas existe a igreja de Santa Maria do castelo *2.

Época Construção
Séc. XII (data por mim alterada, de XIII para XII) / XVI

Cronologia
1165 -
conquista do território aos mouros e doação da zona aos Templários *3, que então se denominava Vila Franca da Cardosa;
1198 - a doação foi revista por D. Sancho I, ficando metade do território na posse de Fernando Sanches;
1213 - doação de foral, segundo o modelo de Ávila / Évora;
1214 - a totalidade da Cardosa foi doada à Ordem do Templo, confirmada pela bula de Inocêncio III, em 1245, altura em que se refere, pela primeira vez, o nome Castelo Branco;
1214-1230 - edificada a primeira muralha pela Ordem do Templo, criando, com Tomar, Monsanto, Zêzere, Almourol e Pombal uma importante linha defensiva;
1229 - D. Simão Mendes, Mestre da Ordem do Templo, mandou construir o palácio para os comendadores;
Séc. XIII, final - notícia de obras no reinado de D. Dinis; tinha quatro portas, a do Ouro, Santiago, Traição e Pelame;
1343 - construída uma segunda muralha, correspondendo a uma alargamento passando a alcáçova a ter sete portas, em vez das três primitivas; execução da torre de menagem, agora adossada à muralha; D. Afonso IV ordena que as vilas de Castelo Branco e Nisa fizessem muralhas, sendo as obras pagas com fundos da sisa sobre o cereal, vinho, carne, sobejos dos hospitais e gafarias e sobras dos Resíduos dos Testamentos, tudo da Ordem, até ao montante de 600 libras;
1357, 1 Outubro - primeira referência a um alcaide-mor no castelo, no processo da sua doação a Martim Lourenço de Figueiredo;
1408 - o palácio é descrito como tendo três câmaras, uma torre e duas cavalriças, tendo, junto ao mesmo, uma cozinha, uma vacaria, um celeiro e uma casa para guardar a prata;
Séc. XV - construção da barbacã;
1422 - no Rol dos Besteiros, é referida a existência de 6390 habitantes;
1496 - na Inquirição, é referida a existência de 839 habitantes;
Séc. XVI - edificação do Paço Quinhentista do qual resta a torre; Duarte D'Armas no seu "Livro das Fortalezas" mostra uma imponente torre de menagem e um Paço - o Palácio dos Comendadores -, com pomar, uma cinta de muralhas com pano duplo junto aos terrenos da planície defendida por cinco torres, uma delas mais alta, que constitui a torre do relógio, já referida como tal; referidas as torres com pedrarias lavradas, com juntas de cal;
1508 - Mateus Fernandes fez uma avaliação das obras necessárias;
1509 - referência a oito portas, a do Ouro, Traição, Espírito Santo, Relógio, Vila, Esteval, Santiago, Santarém; instituição de couto de homiziados;
1510, 20 Novembro - Álvaro Cardoso foi nomeado recebedor do dinheiro das obras do castelo;
1527 - no Numeramento, existe a referência a 1417 habitantes;
1535 - D. João III dá à vila o título de Notável;
Séc. XVII - os últimos comendadores a habitar o palácio foram D. Fernando e D. António de Meneses;
1704, 22 Maio - invasão hispano-francesa derrubou parte da muralha;
1706 - no tombo da vila de Castelo Branco, é referido que o palácio tinha um portal de acesso em cantaria, tendo, à direita, a estrebaria e, no oposto, a cisterna, que se enchia com as águas pluviais do telhado da Igreja de Santa Maria; o pátio encontrava-se murado, situado entre a cabeceira da igreja e o palácio, construído em cantaria lavrada; na entrada, um alpendre sobre 4 arcos de cantaria, sobre o qual surgia uma varanda forrada de madeira de castanho e com guarda de cantaria; à esquerda uma escadaria com 28 degraus, tendo ao lado a cozinha; tinha duas salas com lareiras e janelas conversadeiras; na torre, com três pisos, o sótão, a sala de guarda roupa e outra, no piso inferior, com janela conversadeira; este ligava por passadiço ameiado com a torre de menagem;
1753, Outubro - a antiga alcáçova ainda se encontrava em óptimo estado de conservação, conforme descrição da mesma *4;
1762 - saque da praça, na sequência da Guerra dos Sete Anos;
1763 - devolução da Praça pelo Tratado de Paris;
1769, 6 Novembro - um alvará extingue o cargo de alcaide-mor;
1771, 20 Março - elevada a cidade e tornando-se sede de bispado;
Séc. XIX, 1.º quartel - feitura de uma nova porta para aceder à barbacã N.;
1807 - invasão de Junot, na marcha para Lisboa, deixando o castelo bastante arruinado;
1818 - no Tombo dos Bens do Concelho, é efectuada uma medição das muralhas *5;
1821 - começavam a ser retiradas pedras do Castelo e do Paço pelos habitantes para construção das suas habitações;
1835, 17 Julho - uma Portaria do Ministério da Guarda a pedido da Câmara Municipal, efectuado no ano anterior, concede licença para se destruir os arcos das muralhas e empregar essas pedras em obras de manifesta utilidade pública; foram derrubadas as portas da Vila, do Relógio e do Espírito Santo, sendo a pedra utilizada na construção da Ponte da Granja;
1839, 9 Março - nova Portaria autoriza que fosse vendida parte das pedras das paredes do Castelo e telha e madeira do palácio; 20 Março - portaria permite a venda das telhas e dos madeiramentos; (malvados)
1851 - a Câmara estuda a possibilidade de implantar o cemitério no local, ideia abandonada em 1864 - por ser uma zona demasiado rochosa;
Séc. XIX, 2.ª metade - pela acção do governador-civil Guilhermino de Barros, algumas muralhas foram reconstruídas, bem como algumas estruturas do palácio;
1852, 15 Novembro - violento temporal fez desabar algumas paredes da alcáçova e das muralhas; 19 Novembro - o parque foi cedido à Câmara para cemitério, obra que não se concretizou;
1862 - destruição da Porta do Postiguinho;
1875 / 1876 - início das obras no palácio, para adaptação a casa do professor da escola que se achava anexa, que não se concluiriam;
1893, 18 Maio - a Câmara verifica que os muros da barbacã do Espírito Santo se encontravam arruinados ameaçando perigo, sendo pertencentes a três particulares, pelo que os obrigou a demoli-los caso não procedessem às obras necessárias;
1929 - a Câmara construíu um urinol público na muralha da R. Vaz Preto;
1930 - desaba a última torre da muralha que já se apresentava em ruína;
1933 - construção de três reservatórios de água, adjudicados a Manuel Figueira, em terreno adquirido por 6.000$00;
1936, Março - uma tempestada provocou a derrocada da torre existente no ângulo E. / N.;
1936 - é solicitada à DGEMN um vistoria ao local e inicia-se o projecto de recuperação, como miradouro; simultaneamente, a Câmara solicitou um projecto de reconstrução ao engenheiro Manuel Tavares dos Santos, mas a falta de recursos tornou o projecto inviável;
1975 - é considerada a hipótese de demolir a muralha da R. Vaz Preto;
1977 - a DGEMN faz uma prospecção nesse local, sondando vestígios de outros troços; a Câmara expropriou e demoliu casas adossadas ao troço das muralhas;
1981 - demolição de uns barracões pertencentes à GNR adossados à muralha da R. Vaz Preto;
2000 - demolição de duas casas na R. Vaz Preto pôs a descoberto parte da muralha, nomeadamente um dos torreões.

Tipologia
Arquitectura militar, medieval e quinhentista.
Castelo de que resta parcos vestígios, nomeadamente um troço da muralha com adarve e a torre de menagem do antigo palácio dos comendadores, construído no Século XVI, com vãos de expressão manuelina.

Características Particulares
Castelo integrado na linha defensiva da Raia, mantendo uma torre do primitivo paço quinhentista com janelas geminadas com decoração manuelina, de carácter fitomórfico e arco de querena. Segundo Nuno Villamariz, segue a planta da fortificação de Chastel Blanc na Síria, erguida pela Ordem dos Templários em 1171 *6.

Observações
*1 - a forma desta janela é atribuída aos restauros efectuados pela DGEMN.
*2 - o troço da muralha descrito, fazia parte de uma cerca com a configuração de um pentágono irregular, com 5 torres, 2 delas voltadas para a Cidade velha e 3 para o exterior; junto à torre nascente, erguia-se o alcácer Manuelino demolido por determinação da DGEMN.
*3 - apesar de existirem vestígios datáveis da Pré e da Proto-história no local.
*4 - o Palácio situava-se dentro do castelo, no lado E., junto à capela-mor da Igreja de Santa Maria; a porta principal era de cantaria, com portas de madeira chapeadas a ferro, com 3 varas de altura e 2,5 de largura, que acedia a um pátio com 25x15 varas; no lado direito, um quarto com balcão com acesso por escada de pedra de 12 degraus, 2 portas e 2 janelas para o pátio, tendo 3 para o lado da vila; estava dividido em 4 dependências, 2 de telha vã e 2 com forro de madeira; por baixo do alpendre um arco de pedra de acesso à cavalariça, com 18x6 varas; no pátio, um jardim cercado por muro de cantaria com 7x9 varas com árvores e jasmineiros, situado debaixo de uma galeria com 4 janelas; no lado esquerdo do pátio, uma cisterna com guardas de cantaria e uma porta por trás da Igreja de Santa Maria, parcialmente tapada e que acedia à tribuna dos Comendadores; tem casas térreas, antigo paiol, quase todas arruinadas; por cima da porta, um patim de cantaria que leva à escada principal com 26 degraus, no cimo da qual outro patim com forro de madeira, sustentado por 3 colunas que protege a porta com 9x7 palmos; dá acesso a um recinto lajeado com abóbada, antigamente descoberto, e que era cisterna, com 4x3 varas e com duas portas, uma delas ligada à casa térrea com chaminé e forno e outra à sala de espera, com duas janelas, uma de assentos e outra rasgada, viradas a E., e uma chaminé; tem 3 portas, uma que liga a um quarto com janela, outra a uma sala com janela a N., a qual tem 2 portas, uma para o últimoquarto e outra para a última sala, com duas janelas e chaminé; a terceira porta acede a um compartimento ladrilhado com 3 portas, uma para a cozinha, da qual se vai para a varanda, uma para a varanda, ladrilhada com guarda de pedra e alegretes para flores; os quartos estão sobre 3 arcos de pedra, tapados, à excepção de um, que permite o acesso, tendo, à esquerda, um portado que liga a uma sala abobadada; em frente ao arco, porta em cantaria lavrada, de acesso a uma sala, sob a de espera, toda ladrilhada e, ao centro, florão de azulejo, abrindo a N. para um passeio ladrilhado de pedra miúda e cercado por parede com alegretes; na mesma sala, uma porta que acede à tulha e, em frentr à sala abobadada, uma tulha de azeite; as paredes são mais altas que as coberturas e cercadas de ameias.
*5 - "(...) principia a medição junto a porta de Santa Maria em a muralha e tem do norte para o sul 7 varas e dahi vai ao redor da muralha com caras ao poente ate a porta do Ouro the onde tem 231 varas e de largo 12 varas e dahi vai continuando athe a Porta da Traição tem 10 varas, e da Porta do Ouro tem 101 e 21 de Largo e dai vai athe a Porta do Esteval partindo com a muralha tem 171 varas e dahi continua athe a Porta de Sam Tiago ao canto da torre e tem 73 varas e de largura 7, e dahi vai continuando athe a Porta da Vila partindo com a muralha da banda do sul e do norte com quinta de Sua Excellencia Reverendíssima, e tem 210 varas de cumprimento" (SILVEIRA, António e outros, 2003, p. 22).
*6 - segundo este autor, estaria prevista a construção de uma torre sobre a igreja.

(fonte: IHRU)


Castelo

2 comentários:

Júlio Vaz de Carvalho disse...

Interessante. Recolho documentação e descrições para o nosso trabalho. Está tudo muito disperso, infelizmente. Vou levar daqui, com referência. Obrigado.

Sigillum disse...

Força,
Tudo aquilo que Dignificar a Memória, é sempre bem-vindo
Saudações amigas