terça-feira, 16 de junho de 2009

Comenda de Pinheiro de Ázere

A falta de elementos históricos torna difícil determinar, com precisão, a data de constituição da maior parte destes aglomerados populacionais espalhados pelo país e que outrora tiveram posição de relevo na administração local.

Está neste caso Pinheiro de Ázere, antiga vila e sede de concelho sobre cujo passado tão pouco se tem dito, não obstante os valiosos documentos manuscritos, alguns em pergaminho com centenas de páginas, agora encontrados depois de aturadas buscas, virem fazer um pouco de luz sobre a constituição da referida vila nos primeiros tempos.

Esperamos publicar, no todo ou em parte, o texto dos referidos documentos ou pelo menos daqueles que se consideram mais importantes.

A freguesia denominava-se nos primeiros tempos Santa Maria do Pinheiro.

A palavra Pinheiro deve ter tido origem no facto de ter existido em tempos remotos junto da ermida dedicada a Nossa Senhora um monstruoso pinheiro que caiu por ocasião de um grande temporal no ano de 1700.

Ázere para uns, deriva da palavra "Azize" que significa estimada.
No entanto, outros são da opinião que ela deriva de "Azar" que significa batalha.
É muito possível que em tempos bastante longínquos se tenha travado alguma, muito importante, nesta região.

Pouco se sabe da constituição deste extinto concelho de Pinheiro de Ázere até ao século XIII, mas nas inquirições a que se procedeu em Maio de 1258 ordenadas por D. Afonso III, se diz que uma parte de Pinheiro pertencia a Santa Cruz de Coimbra e as outras três partes à Ordem do Templo, e que os seus homens já iam nas hostes do Rei.

Foi nesta vila que o conde D. Pedro, filho de D. Dinis, esperou seu irmão D. João Afonso que o desafiara.
Porém, a conselho do infante D. Afonso (futuro Rei) retirou-se com as suas hostes que o acompanhavam desde a Beira.

O aglomerado populacional da freguesia formou-se à volta da sua igreja paroquial da invocação de S. Miguel Arcanjo, e os seus habitantes regiam-se pelos usos e costumes legados pelos seus antepassados e pelas doutrinas da Igreja, tementes como eram da Justiça Divina.

Extinta a Ordem do Templo passou esta freguesia a pertencer à Ordem de Cristo e a ser cabeça da Comenda do mesmo nome, cujo comendador ou seu delegado aqui tinha residência e administrava os seus bens.

O Capítulo Geral da Ordem celebrado no Convento de Tomar em 5 de Dezembro de 1503 consentiu que fosse feito o tombo dos bens da Comenda pelos visitadores da Ordem Frei D. João Pereira e bacharel Frei Diogo do Rego.
Foi feito por Frei Francisco Freire da dita Ordem, de 20 a 25 de Fevereiro de 1508. Era comendador neste ano Frei Gomes Ferreira. Este documento está escrito em letra tipo cursivo e tem 75 páginas.

A Comenda possuía bens nas aldeias de Aguieira e Moreira de Fundo, freguesia de Santar termo de Viseu, em Travanca, concelho de Penacova e na Serra da Estrela, termos de Gouveia e de Folgosinho, a terra chamada a Serdaça.

Estão transcritos neste tombo os limites do concelho de Pinheiro de Ázere, e nele também se indica os direitos que a Ordem tinha na dita Comenda.

Em 16 de Fevereiro de 1662 foi feito novo tombo dos bens da Comenda que terminou em 26 de Fevereiro de 1664.

Foi Juiz deste tombo Inácio de Magalhães e escrivão Gaspar de Lemos Costa. Este livro está em muito mal estado de conservação, tem 191 folhas e foi feito em letra encadeada.

Em 12 de Maio de 1827, de novo se fez o tombo dos bens da Comenda, sendo juiz do tombo o juiz de fora da vila de Tondela, Bartolomeu José Vaz Preto Geraldes e escrivão Francisco Xavier Boto Machado.
Era administrador da Comenda Luiz Ferreira de Andrade.
Nele se diz que os bens existentes na Serra da Estrela se não cobravam há anos. Encontram-se neste tombo demarcados os limites do concelho que confrontam com os concelhos de Couto do Mosteiro, Óvoa e S. João de Areias.
Tem 236 folhas e a letra é do tipo corrente. Os rendimentos desta Comenda tinham de custear as despesas do comendador, da Igreja e das capelas, como se vê na visita feita a esta Comenda em 1507, e prover o sustento do pároco e do ermitão da capela da Senhora da Ribeira.

Foram comendadores desta Comenda entre outros: Jorge de Melo, Monteiro – mor de D. João III, Manuel de Melo, Monteiro – mor de D. Sebastião, de D. Henrique e de D. Filipe II; Garcia de Melo, e Francisco de Melo, Monteiro – mor, até 1712, nesta data foi-lhe retirada a posse da Comenda. D. Maria de Melo, filha do Monteiro – mor do reino; D. Joana Catarina de Melo, casada com D. Pedro da Cunha Mendonça e Meneses, Monteiro – mor do reino, e D. Francisco José de Melo da Cunha Meneses, primeiro Marquês de Olhão, ficando a partir de então na posse desta família.

Em 13 de Julho de 1514 foi-lhe concedida foral por D. Manuel I, que regulamentava os direitos e deveres dos habitantes da freguesia. (O original deste documento encontra-se arquivado na Biblioteca Municipal de Santa Comba Dão).

A partir de 1532 com a criação da Mesa da consciência e Ordens, tribunal criado por D. João III para resolução dos diversos casos jurídicos e administrativos relativos ao mestrado da Ordem de Cristo, ficou este concelho pertencendo ao respectivo tribunal.

Além da igreja paroquial existente nesta freguesia, as capelas do Senhor das Necessidades; de S. Sebastião; da Senhora da Conceição, em Pinheirinho; capela particular da família Corte – Real e da Senhora da Ribeira ou do Pranto.

A dividir o corpo da Igreja do altar – mor existe um arco que fecha com uma pedra onde está esculpida a Cruz de Avis – símbolo da ordem de Cristo.

No pavimento que antecede o altar – mor e no da porta da sacristia existem lajes de dimensões ilegíveis que servem de cobertura a sepulturas, possivelmente de comendadores que aqui tenham falecido.

A capela da Senhora da Ribeira ou do Pranto, de todas a mais importante, que foi o mais célebre santuário destas terras, fica situada entre montes à beira do rio Mondego num sítio muito aprazível. É muito antiga e parece ter sido igreja de freguesia há muitos séculos suprimida.

(fonte)

Imagens

6 comentários:

Raul Ramos Gouveia disse...

Exm.ª Senhora,
A curiosidade que tenho sobre a genealogia da minha família levou-me a ler com atenção o seu interessante artigo. Permita-me referir que o meu avô paterno Bernardo Ramos Gouveia nascido em 1893, em Pinheiro d' Ázere, foi baptizado na "Egreja Parochial de São Miguel de Pinheiro d' Azere" que creio corresponder à Igreja Paroquial referida no artigo. Aproveito esta oportunidade para lhe solicitar que me informe se existe conhecimento disponível sobre a genealogia das famílias de Pinheiro d' Àzere.
Com efeito, encontrei algumas lacunas nos ascendentes de minha bisavó paterna que pretendia esclarecer.
Agradeço-lhe a atenção dsiponibilizada e felicito-a pelo seu excelente blogue.

Raul Bernardo Mourato Ramos Gouveia

raulramosgouveia@sapo.pt

Sigillum disse...

Agradeço-lhe o seu amável comentário.

Efectivamente a Igreja Matriz de Pinheiro de Ázere corresponde à Igreja de São Miguel Arcanjo.

Segundo refere a IHRU:

1508, 12 Fevereiro - visitação da Ordem de Cristo, constatando-se o orago de São Miguel, pertença do comendador Frei Gomes Ferreira, sendo capelão Cristóvão Afonso, clérigo apresentado pelo bispo de Viseu; ordenaram a feitura de um cálice novo de prata; na visitação, consta uma pequena descrição da igreja.

Quanto à possibilidade de estudar a genealogia local, poderá consultar os registos paroquiais, a Junta de Freguesia e demais entidades culturais, bem como a Câmara Municipal de Santa Comba Dão; em princípio terão em poder os arquivos históricos de Pinheiro de Ázere.

Poderá ainda consultar a Torre do Tombo; lá terão muitas informações que poderão ser-lhe úteis.

Cumprimentos

Daniel disse...

A actual igreja de Pinheiro de Azere é mais recente que a "Capela" de São Miguel Arcanjo referida no artigo e nos vossos comentários.

Essa capela foi destruída e deixada ao abandono, localizava-se então em Pinheirinho, terra que ainda hoje faz parte de Pinheiro de Ázere.

A cruz de Aviz que se encontra na actual igreja de Pinheiro de Ázere pertencia à Capela de São Miguel Arcanjo de Pinheirinho.

Sigillum disse...

Agradeço as informações
A presença no terreno é muito útil!

Saudações

Carla De Sousa disse...

Cara S
Sou Pinheirense e a informação que tenho relativamente à origem da palavra Azere é uma árvore com nome de azereira que em tempos existia em abundância (agora menos) nesta região principalmente nas margens mais íngremes do Mondego. Assim como o nome da povoação vizinha (Ázere)outrora sede de freguesia de Pinheiro de Ázere, nos tempos em que seria o rio Dão a marcar os limites dos concelhos e não o Mondego como acontece actualmente.

Consta que em anos em que era impossível atravessar o mondego, o padre da freguesia subia para uma pedra do lado de ázere e de lá rezava a missa com os paroquianos de Pinheiro a assistirem do outro lado do rio. Inclusive existiam altares em pedra nas hortas de ázere criados para este acontecimento.
Por isso o nome Pinheiro de Ázere (anteriormente pertença da freguesia de Ázere). Não tenho dados concretos, nem certeza de que esta informação seja verdadeira, creio que para o saber teria que se investigar primeiro a história de Ázere...

Sigillum disse...

Cara Carla de Sousa,

Muito grata. A tradição oral é sempre de ter em conta, pois é nela que reside a parte mais importante do nosso património histórico, ainda que oral; urge transcrevê-lo.

Saudações