quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Santa Leocádia


Enquadramento
Rural, isolado, no rebordo ocidental da serra da Padrela, na periferia da aldeia, sobranceiro a um vale agrícola. Adro sobrelevado, murado com acesso frontal por portão de ferro, antecedido por cruzeiro e escadório desenvolvido em leque, e ladeado por altos ciprestes; pavimento de terra, relvada, com dois sarcófagos antropomórficos encostados à igreja.

Descrição
Planta longitudinal composta por nave única e capela-mor quadrangular, mais baixa e da mesma altura, tendo adossado a ambas na fachada lateral S. sacristia também quadrangular. Volumes articulados com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas e uma na sacristia. Fachadas com paramentos de cantaria aparente. Fachada principal virada a O., terminada em empena de cornija truncada por dupla sineira de arco de volta perfeita, ambas com sino, terminadas em cornija encimada por pináculos e cruz central. É rasgada por portal de verga recta rústica e, sobre ele, por uma janela rectangular com gradeamento de ferro; ladeia-a relógio circular. Fachadas laterais terminadas em cornija, lisa na nave e decorada com folhagens de remate boleado na capela-mor, assente em cachorrada, decorada com cabeças humanas, animais e motivos geométricos; a lateral N. é rasgada por uma fresta e dois portais entaipados: um de arco quebrado e tímpano liso e outro de arco contracurvado, e a do lado S. possui na nave duas janelas e um portal de verga recta, uma fresta de arco de volta perfeita e um portal de arco quebrado entaipado; na parede da nave, corre em plano intermédio consolas decoradas de apoio a um alpendre já desaparecido. Na parede da sacristia abre-se uma janela rectangular rústica. A fachada posterior apresenta ao centro fresta de duas arquivoltas decoradas com rosetas e enxaquetado, assentes em impostas decoradas com folhagens e em colunelos de fuste decorado com caras e folhagens de remate boleado. Sobre a empena angular uma cruz de âncora. INTERIOR de paramentos rebocados e caiados de branco, com pavimento de lajes regulares de granito, cobrindo inúmeros enterramentos, alguns deles assinalados por letras, algarismos ou molduras gravadas, coberto por soalho de madeira, e cobertura de madeira, formando caixotões pintados com flores nos ângulos e ao centro, de cores rosa e outras azuis. Coro-alto de madeira, com balaustrada de madeira, pintado a marmoreados rosa e verde, acedido por escada disposta no lado da Epístola; no coro possui escada de madeira que, através de alçapão, permite aceder à sineira; no sub-coro, pia baptismal circular protegida por balaustrada de madeira. No lado do Evangelho dispõe-se, frente ao portal lateral, púlpito rectangular sobre mísula volutada com guarda de madeira pintada; segue-se-lhe retábulo de talha dourada e policroma, de planta recta e três eixos, e, no topo da nave, um outro, igual ao existende no lado da Epístola em posição confrontante, também de talha dourada e policroma, mas de planta recta e um eixo, encimados por baldaquino rectangular pintado a marmoreados. No lado do Evangelho, desenvolvem-se pinturas murais ao longo de 5 m., destacando-se entre os dois retábulos a pintura representando a imagem de São Cristóvão, em grande escala, segurando um cajado e levando no ombro esquerdo o Menino Jesus. No lado da Epístola, onde a superfície é sensivelmente menor, destaca-se painel rectangular com moldura envolvente, criando composição independente das outras, e tendo na zona inferior a inscrição "sta imãgen Mãdou pimtar ... Ãdaes por sua..."; ao centro do painel vê-se uma figura feminina. Arco triunfal quebrado com arquivoltas pintadas com enxadrezado de óvulos, enxaquetados e dentes de serra com pérolas nos intervalos, assente em impostas lisas; inferiormente, surgem pintados acantos enrolados. Na capela-mor, paredes laterais com pinturas murais; no paramento do lado do Evangelho, mais rico, possui várias cenas pintadas, divididas, criando vários registos; uma cena da Visitação, com a figura da Virgem e de Santa Isabel, tendo como fundo porta em tromp l'oeil, na zona central uma figura que poderá corresponder à Anunciação, e depois um Menino Jesus amparado por mãos femininas, talvez a cena do "Massacre dos Inocentes"; no paramento do lado da Epístola, surge representado uma figura profana, num fundo paisagístico, um tocador de gaita de foles tendo a seu lado uma outra figura, segurando nas mãos um cajado; encima a cena um anjo segurando nas mãos filactera com inscrição "A 1?61". Na zona inferior dos paramentos, surge pintado faixa larga com motivos geométricos, tipo mosaico, e na zona superior grotescos pompeianos, com motivos vegetais, anjos, aves e outros animais. De cada lado do arco triunfal, surge uma inscrição de caracteres góticos pintada; no lado direito parece ".. esta obra mandou fazer Dom Fernando..." e do esquerdo "... El rey ... de Coimbra...outeiro...". A parede testeira apresenta pintados à direita, a figura de São Paulo e, à esquerda, a de São Pedro, ambas de grande dimensão, enquadradas numa espécie de edículas separadas por colunas de capitéis coríntios e tendo como fundo grotescos. Retábulo-mor de planta recta e três eixos delimitados por colunas torsas decoradas por pâmpanos e anjos, assentes em mísulas volutadas e, nos extremos, em plintos; as colunas centrais prolongam-se em arquivoltas, formando o ático e envolvendo o arco de volta perfeita da tribuna central, revestida a painéis de talha decorados com acantos; na zona central, sotobanco muito elevado para receber o sacrário e trono de três andares. Nos laterais, painéis com mísulas contendo imagens encimadas por entablamento encimado por dois painéis pintados, no lado do Evangelho com a figura de São Pedro e no oposto com a de São Paulo; remate com aproveitamento de elementos de talha. No banco, duas portas entalhadas de acesso à tribuna.

Descrição Complementar
Retábulo lateral do lado do Evangelho de planta recta e três eixos delimitados por, pilastras nos extremos, e colunas torsas, de espira fitomórfica, e capitéis coríntios, assentes em mísulas com anjos atlantes, e suportando entablamento de friso decorado com concheados; no eixo central, nicho de arco de volta perfeita decorado, contendo imagem em mísula e nos laterais, de fundo pintado por flores, mísula e baldaquino; tabela pintada ladeada por quarteirões, aletas laterais e pináculos no alinhamento das colunas extremas, rematado por frontão de volutas. Os retábulos laterais do topo da nave têm planta recta e um eixo, delimitado por colunas coríntias com o terço inferior decorado com acantos e querubins, assentes em plintos ornados com acantos e suportanto entablamento, sobre o qual assenta tabela rectangular ladeada por quarteirões, aletas e pináculos sobre acrotérios; remate em frontão de volutas interrompido; ao centro, nicho de arco de volta perfeita enquadrado por alfiz decorado por acantos em forma de voluta, contendo imagem.

Cronologia
Séc. XII - Provável construção da igreja românica;
1264, 28 Setembro - o rei, atendendo às queixas recebidas da parte dos abades das Igrejas de Santa Leocádia, Moreiras e São Miguel de Nogueiras, ordena aos juízes de Chaves que não obrigassem os habitantes das terras que as referidas igrejas possuiam nos termos de Chaves e Montenegro a irem em anúduva ao castelo de Chaves;
1287 - documento relativo a um acordo entre Dom Telo, Arcebispo de Braga e os monges de Castro de Avelãs, figura um "Domino Joanne Didaci - Abate Ecclesiae Sanctae Leocadie de Monte Negro";
Séc. XVI - ampliação da nave, dada a linha de "costura" evidente do lado N. e porta de arco contracurvado; realização das pinturas murais;
Séc. XVII / XVIII - data dos retábulos de talha;
Séc. XVIII - alterações na fachada principal, com abertura de novo portal e janela; provável alteamento da capela-mor e ampliação da nave para O.;
1727 - data gravada sobre o janelão da fachada S.;
1799 - tecto da sacristia;
1824 - remodelações assinaladas na padieira da primeira janela e porta da fachada S.;
Séc. XIX - pinturas do tecto;
1997 - durante os trabalhos arqueológicos, detectou-se no cunhal NE. da capela-mor um muro de aparelho romano, confirmando a existência de restos de um edifício desse período, talvez um "mutatio", alicerces que existem sob a igreja e o adro;
2002 / 2004 - visitas ao imóvel para elaboração da Carta de Risco do imóvel.

Tipologia
Arquitectura religiosa, românica. Igreja românica de planta longitudinal composta por nave única e capela-mor rectangular, mais estreita, com sacrisitia adossada à fachada lateral S.. Fachada principal terminada em empena truncada por dupla sineira e rasgada por portal de verga recta simples e janela rectangular. Interior com coro-alto, cobertura de madeira, em caixotões com flores pintadas, provavelmente do Séc. XIX, púlpito do lado do Evangelho, dois retábulos laterais de talha dourada e policroma maneiristas e um barroco e retábulo-mor de talha dourada e policroma maneirista. Pinturas murais do séc. 16 cobrindo a nave e capela-mor.

Características Particulares
Igreja de romaria com alpendre exterior. Todo o seu interior era revestido a pinturas murais, ao que parece com 2 níveis pictóricos sobrepostos, com figuras representadas em grande escala. Sabe-se que o pintor era de Coimbra e as pinturas foram feitas com base nas gravuras de Wohlgemuth, mestre do séc. 15, de Nuremberga. A figura de São Cristóvão na nave possui grande qualidade plástica, portando manto de decoração algo cuidada, imitando brocado, contrapondo-se com a figura do Menino no ombro, de traço muito menos cuidado; São Cristóvão apresenta alguns repintes ou várias mãos. Os grotescos no fundo destas são típicos do séc. 16 e surgem também nos frescos da Igreja de Vila Marim. Algumas das pinturas possuem legenda, com troços delidos, com referência ao seu promotor e / ou data de execução. Quer a pintura mural da parede testeira da capela-mor, que poderá ter constituído uma estrutura retabular, quer os dois painéis do retábulo-mor, possuem iconografia idêntica, representando as figuras de São Pedro e São Paulo. O retábulo lateral do Evangelho possui estrutura muito arcaica, maneirista, e decoração joanina, com alguns elementos rococós. O retábulo-mor é maneirista, de andares, com elementos de talha nacional, apresentando muitos elementos reaproveitados .

Observações
A Igreja de Santa Leocádia foi Reitoria e Comenda da Casa de Bragança e pertenceu ao Arcebispado de Braga até à criação da diocese de Vila Real. A realização de sondagens interiores puseram a descoberto pinturas murais na primeira parte da nave e na capela-mor. Foram executadas a têmpera, com aglutinante de gema de ovo detectando-se a presença de resina, sobre uma argamassa pouco carbonatada. A paleta é relativamente variada, sendo os pigmentos mais usados os ocres, terras, vermelhos e verdes.

(fonte: IHRU)

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Le Barde Ouvrier



AIR: Par des chansons ma mère m’a bercé.

Sur les vieux murs de la grande cité
Lorsque la nuit a déployé ses ailes,
L’esprit du barde errant en liberté
Croit entr'ouvrir les voûtes éternelles.
Ah! laissez lui ses rêves consolants;
N’étouffez pas, n’étouffez pas ses chants!

Le front penché sur un vieux manuscrit,
Miroir vivant où son âme rayonne,
Qu'entrevoit-il? un ange qui sourit,
Et l’avenir qui tresse une couronne!
Ah! laissez-lui, etc.

Pauvre, il n’a pu prendre part aux leçons
Qu’en ses bazars débite la science;
Mais cependant mùrissent des moissons
Sous le soleil de son intelligence!
Ah! laissez-lui, etc.

Savants, du haut de votre piédestal,
Croyez-vous donc effaroucher sa muse?
Votre dédain orgueiLleux et brutal
N’est qu’un hochet dom sa vcrs’e l’amuse!
Ah! laissez-lui, etc.

Ce n’est qu’un fou! dit-on de toutes parts...
Fou dévore par l’orgueil et l’envie!
Mais, de ce fou qu’importent les écarts,
Puisque de fleurs ils parsèment la vie!...
Ah! laissez lui ses rêves consolants;
N’étouffez pas, n’étouffez pas ses chants!


- Alexandre Guérin

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Solstício de Inverno ...

Este ano ocorre, 21 de Dezembro, às 12h04m.
Com plena Lua Cheia.

E com uma particularidade: eclipse total da Lua!

Solstício de Inverno

Muita Paz, são os meus votos

A Paz é um bem que cada ser humano detém…
É uma serenidade que faz parte da nossa alma.
Fonte onde cresce o amor e se suaviza a calma…
É uma benesse dos céus para reflexão do homem!

É um apelo em forma de silêncio contra uma guerra…
Sempre tão nefasta em qualquer ponto da Terra.
É o santuário que nos abre as portas para a felicidade…
Onde baniremos a pobreza que assola a humanidade!


- Rui Pais, A Paz

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Ponte da Mizarela

Situa-se em Ruivães.

Reza sobre ela, a seguinte lenda:

"Diz-se que um padre, querendo fazer uma pirraça ao Diabo, se disfarçou em salteador perseguido pelas justiças de Montalegre, e foi certo dia, à meia-noite, àquele lugar para passar o rio. Como o não pudesse passar, por meio de esconjuros, invocou o auxílio do Inimigo. Ouve-se um rumor subterrâneo e eis que aparece, afável e chamejante, o anjo rebelde:

- "Que queres de mim?" - perguntou ele.

- "Passa-me para o outro lado e dar-te-ei a minha alma."

Santanás, que antegozava já a perdição do sacerdote, estendeu-lhe um pedaço de pergaminho garatujado e uma pena molhada em saliva negra, dizendo:

- "Assina!".

O padre assinou. O Demo fez um gesto cabalístico e uma ponte saiu do seio horrendo das trevas.

O clérigo passa e, enquanto o diabo esfrega um olho, saca da caldeirinha da água benta, que escondera debaixo da capa de burel, e asparge com ela a infernal alvenaria, fazendo o sinal da cruz e pronunciando bem vincadas as palavras do exorcismo.

Santanás, logrado, deu um berro bestial e desapareceu num boqueirão aberto na rocha, por onde sairam línguas de fogo, estrondos vulcânicos e fumos pestilenciais. O vulgo das redondezas, na sua ignorância e ingenuidade, e não sabemos a origem, aproveita-se da ponte para ali exercer um rito singular.

Quando uma mulher, decorridos que sejam dezoito meses após o seu enlace matrimonial, não houver concebido, ou, quando pejada, se prevê um parto difícil ou perigoso, não tem mais que ir à Mizarela, à noite, para obter um feliz sucesso. Ali, com o marido e outros familiares, espera que passe o primeiro viandante. Este é então convidado para proceder à cerimónia, a qual consiste no baptismo in ventris do novo ou futuro ser. Para isso, o caminhante colhe, por meio de uma comprida corda com um vaso adaptado a uma das extremidades, um pouco de água do rio e com a mão em concha deita-a no ventre da paciente por um pequeno rasgão aberto no vestuário para este efeito, acompanhando a oração com a seguinte ladaínha:

Eu te baptizo
criatura de Deus,
Pelo poder de Deus,
e da Virgem Maria.
Se for rapaz, será ‘Gervás’;
se for rapariga, será Senhorinha.
Pelo poder de Deus e da Virgem Maria,
um Padre-Nosso e uma Avé-Maria.
"

O barulhar iracundo da cachoeira no abismo imprime a estas cenas um cunho de tétrica magia. Segue-se depois uma lauta ceia, assistindo, geralmente, o improvisado padrinho. E o êxito é completo: um neófito virá alegrar a família. Claro que se na primeira noite não passar o viandante desejado, a viagem à Mizarela repetir-se-á até o cerimonial se realizar nas condições devidas.

De um dos lados ergue-se um enorme rochedo que o povo denominou "Púlpito do Diabo", por crer que o Demo vai ali pregar à meia-noite, quando as bruxas das redondezas se reunem em magno concílio…

- Mário Moutinho e A. Sousa e Silva, O mutilado de Ruivães

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Beleza Selvagem

Britonia, Altar de Britonia

Francisco Silveira, em Mapa Breve da Lusitania Antiga, fala de: um altar de Britonia, na Serra de Arga, perto de onde teriam morado os antigos Britões.

Britonia (Galego - Español)

Bretões e a Diocese Britoniarum

Britonia, mais do que uma referência, é um desafio à procura. À procura da 'antiga magia'.

[No mais alto da Serra de Arga] ... para a parte do norte há sinais de sepulturas, e de Altar Christão, no qual (conforme a tradição dali) celebrava um Bispo fugitivo [um britão? ...]; e assistiam ao Tremendo Sacrifício os afligidos cristãos, no tempo da invasão dos árabes. Cremos era o de Britonia, situada ali perto. Em uma quebra dela, virada para o nordeste, esteve um antigo Mosteiro, da invocação do Baptista, cuja igreja ainda hoje adornada, demonstra muita antiguidade.

- Francisco Silveira, Mapa Breve da Lusitania Antiga

sábado, 18 de dezembro de 2010

Lenda da Serra de Arga

A impaciência do jovem Egica contrastava com a calmaria dessa linda manhã de Primavera. O Sol iluminava e aquecia o solo com o seu beijo quente. A passarada esvoaçava saltitando, sem os problemas daqueles que habitam a terra. Mas o jovem Egica não via, não ouvia, não sentia nada mais à sua volta do que o objecto que o preocupava.
Preparado para montar de repente no seu cavalo veloz — caso surgisse qualquer complicação ou a sua bem-amada aparecesse, tal como estava combinado — Egica encheu o peito de ar para combater a respiração difícil que lhe causava o desespero em que se encontrava. Eulália — o seu grande amor — dissera-lhe dos projectos de seu pai, o rei Ervígio: casá-la com o guerreiro Remismundo. E logo o par amoroso planeou a fuga que lhes daria a liberdade. Mas Eulália não chegava no momento combinado. Eulália demorava-se. Porquê? Teria o rei descoberto o plano que haviam arquitectado com tanta minúcia?
O Sol avançava na sua linha de movimento aparente. E a impaciência de Egica avançava também pelo seu corpo, transmitindo-a ao próprio cavalo, que batia com as patas no solo.
De súbito, reteve a respiração. Alguém contornava a esquina murada, com passo leve e apressado. Era Eulália, finalmente! Ele correu para ela. Tomou-a nos braços.
— Querida! Tenho a sensação de ter esperado uma eternidade!
Ela tremia e falou em voz baixa, como se temesse ser ouvida:
— Egica! Partamos imediatamente! Os soldados de meu pai perseguem-me! Deram pela minha fuga!
O jovem ajudou-a a subir para o cavalo e recomendou-lhe, enquanto montava também:
— Segura-te a mim. O cavalo é veloz...
E, sem mais explicações, Egica esporeou o alazão e partiu como uma seta.
No ar ficou por um momento o eco desse galope desenfreado...
Entretanto, os soldados de Ervígio procuravam o par em fuga. Não se atreviam a regressar sem a missão cumprida. Contudo o dia ia-se prolongando, os cavalos enchiam-se de cansaço e espuma, e o próprio cheiro a Primavera parecia cúmplice na fuga de Eulália e do jovem Egica, envolvendo-os no seu manto de mistério para que não fossem encontrados...

A tarde já ia em meio quando o jovem fez descer a sua noiva e a conduziu junto a um regato, para descansarem.
Receosa, ela olhou em volta.
— Teremos levado grande dianteira?
Ele beijou-lhe a testa coberta de pó.
— Querida, nada receies! Eles perderam-nos de vista e julgam que seguimos para o norte, onde me era fácil encontrar gente amiga. Porém... troquei-lhes as voltas...
— E para onde vamos?
— Vou tentar atravessar a Galiza e procurar refúgio seguro no Mosteiro Máximo, onde sei que se encontra um grande amigo de meu pai. Ele nos ajudará!
Com voz ansiosa, Eulália perguntou:
— Ainda estamos longe?
O braço forte do jovem guerreiro ergueu-se, apontando o horizonte.
— O recorte do Monte Medúlio já se divisa além. E só mais um esforço!
— E é nesse monte que existe o mosteiro que procuras?
— Sim, meu amor. Verás que tudo correrá bem!
Ela sorriu-lhe. Um sorriso quase infantil. Mas logo a sua expressão entristeceu.
— Só por ti receio, Egica!
— Por mim? E por ti? Já pensaste bem o que viria a acontecer se os soldados de teu pai nos apanhassem e conseguissem arrancar-te dos meus braços? Confesso-te que preferiria a morte, mil vezes!
Ela levantou-se como quem descobre de súbito um fantasma.
— Continuemos a cavalgar! Tenho medo! Detesto Remismundo. É traiçoeiro, feio e irascível. Se te apanham, matam-te! Ele odeia-te. Odeia-te porque te inveja!
Egica sorriu, numa tentativa para acalmar a sua bem-amada. Passou-lhe o braço pelo ombro. Puxou-a para si docemente. Mas como ela olhasse em redor com o medo estampado no rosto, ajudou-a de novo a montar, declarando-lhe:
— Na verdade é melhor seguirmos viagem quanto antes. Teremos de chegar ao mosteiro primeiro que a noite desça sobre a montanha.
O cavalo abrandou a marcha. Estava visivelmente cansado. A penumbra que antecede a noite envolvia completamente aquele estranho grupo no cenário grandioso do Monte Medúlio. Lá estava o Mosteiro Máximo, meta dessa carreira que durava há algumas horas. O silêncio naquele local e àquela hora era impressionante. Ouviam-se as próprias respirações, alteradas pelo cansaço e pela emoção.
Descendo da montada, o par fugitivo dirigiu-se para o mosteiro e bateu à porta, discretamente. Um homem com o rosto quase tapado veio abrir. Egica tivera o cuidado de colocar Eulália fora do alcance visual do monge. E perguntou, com certa ansiedade na voz:
— Irmão, perdoai se venho molestar-vos a esta hora. Mas precisava de falar com urgência ao irmão Gondemaro.
O monge porteiro fechou o postigo por onde espreitara. O silêncio voltou a envolver a serra. A espera foi curta, mas o coração de Egica bateu mais forte quando o postigo voltou a abrir-se. Desta vez, porém, assomou um outro rosto, que abriu os olhos num espanto incontido.
— Louvado seja Deus! Quem vejo na minha frente!
Egica sorriu.
— Sim, irmão Gondemaro! Sou eu... o filho do homem que convertestes em Salinas!
— E que me quereis?
— Preciso do vosso auxílio. Trago comigo alguém a quem muito quero e que corre perigo neste momento.
Chamou, com doçura:
— Eulália! Aproxima-te.
A jovem apareceu ante os olhos ainda mais espantados do velho monge. Com voz quase velada, ele perguntou a Egica:
— Quem é esta dama?
O jovem elucidou:
— É Eulália, a filha do rei Ervígio.
O monge levou uma das mãos ao peito.
— Santo Deus! Entrai para onde vos não vejam aqui e contai-me o que neste momento vos aflige.
E, abrindo com precaução singular a grande porta do mosteiro, o monge introduziu na santa morada o casal fugitivo.
Lá fora, a noite começava a cair...

Quando o jovem Egica acabou o relato da sua odisseia, raptando a filha do rei Ervígio para vir ao Mosteiro Máximo de Monte Medúlio procurar um amigo que os casasse, o irmão Gondemaro olhou-os fixamente, num ar aflito.
— Que o Senhor Deus dos Exércitos me inspire, pois não sei que hei-de fazer!
Egica sobressaltou-se.
— Não sabeis... porquê?
O monge explicou:
— A noite envolve agora os campos e isto aqui é deserto! Todavia, no mosteiro não podem ficar mulheres e muito menos a filha do rei Ervígio!
Eulália levantou-se com dignidade.
— Não desejo ser uma sombra para a vossa consciência. Aceito a expulsão e só desejo que a morte me encontre depressa!
Egica protestou, magoado:
— Eulália! Enquanto o meu braço puder erguer-se, nenhum mal te acontecerá! Continuemos descendo a terra lusitana até aos Hermínios e talvez os contrafortes dessa serra sejam mais generosos que este mosteiro!
O monge tapou o rosto com as mãos. Silenciou durante alguns segundos. Depois murmurou, como em oração:
— Que Deus se amerceie de mim!
Destapou o rosto e encarou os jovens.
— Se vos deixo partir, os lobos ou os salteadores poderão matar-vos. Se vos recolho... atraiçoo uma das nossas regras! Que hei-de fazer? Que Deus me inspire!
Egica retorquiu:
— Escolhei, irmão, entre as nossas vidas e a tranquilidade da vossa consciência.
— Ai de mim! A tranquilidade foi-se com o pôr do sol e a vossa aparição. Não há, pois, por onde escolher. Ficai! Vou casar-vos. Agora mesmo e secretamente. Depois emprestarei um hábito à filha do rei Ervígio para que pernoite aqui. Todavia, logo que a luz do dia desponte, dar-vos-ei um salvo-conduto para que possais ir à presença da dama que vive num castelo próximo. Só ela poderá abrigar-vos.
Egica apertou a mão do monge.
— Que Deus vos recompense, irmão Gondemaro!
Quando a manhã voltou a banhar de luz os campos, onde os passarinhos saltitavam cantando e brincando alegremente, encontrou os noivos já prontos para a nova jornada, aliás curta.
Com a alma gritando alegrias, o par enamorado despediu-se do monge Gondemaro. No rosto dos jovens espalhava-se a felicidade. O monge reparou neles e disse, olhando a filha de Ervígio:
— Pareceis outra, esta manhã!
Ela sorriu-lhe.
— Sou feliz, irmão Gondemaro! E não esquecerei quanto vos devo dessa felicidade.
O monge meneou a cabeça.
— Não canteis hossanas antes de tempo! A tempestade ainda não passou. Há que informar vosso pai da decisão que tomastes e obter o seu perdão. Felicidade é o reflexo da paz nos vossos corações. Sem essa paz, nada fará sentido. Mas ide. Deus vos abençoará! Vou enviar ao rei vosso pai um mensageiro de confiança, pedindo-lhe perdão para vós dois... e para mim, que vos uni na presença de Deus sem o consentimento do rei Ervígio.
O jovem godo sorriu para o monge.
— Quanto vos ficamos devendo! Só Deus poderá pagar-vos!
Eulália olhava agora o estranho habitante do mosteiro com certa ansiedade. Egica depressa deu por essa repentina mudança.
— Que tens, meu amor?
Ela fitou o horizonte distante. A sua voz fraca, de menina, esclareceu num suspiro:
— Meu pai era tão meu amigo! E tudo isto por causa de um guerreiro ambicioso que fingiu amar-me e jurou coisas incríveis... Gostava de saber o que fará meu pai depois de escutar o vosso mensageiro, irmão Gondemaro.
Ele prometeu:
— Irei procurar-vos e far-vos-ei ciente da sua resposta, seja ela qual for. Ide, pois, descansada na paz do Senhor, porque a luz do dia já é clara!
Eulália olhou em volta, como se visse aquele cenário pela primeira vez.
— Como é linda esta serra! Os Romanos chamaram-lhe Monte Medúlio? Pois eu penso que ela mais parece uma enorme agra. Quem a cultiva, irmão Gondemaro?
— Os monges do nosso mosteiro e alguns particulares. Todos aqui trabalham. Esta é uma terra abençoada por Deus!
Egica sorriu, repetindo:
— Serra de Agra! Eis um bom nome, com o qual a baptizo.
O monge sorriu também.
— E julgais que assim ficará chamada a serra, só porque vós assim a denominais?
Egica sentenciou, teimoso, com aquela energia que punha em todas as suas palavras e actos:
— Daqui por diante os nossos filhos só conhecerão esta serra como a de Agra. Os nossos netos falarão dela aos seus netos. E assim por diante, através dos séculos!
No rosto do monge nasceu uma expressão de dúvida. Mas sorriu, incitando:
— Experimentai... se isso vos apraz. Tudo é possível quando Deus quer!
E despedindo-se:
— Adeus, irmão. Que o Senhor vos acompanhe!

Alguns meses passaram. Eulália e Egica continuavam no castelo onde o salvo-conduto do monge Gondemaro os abrigara. Não mais tiveram novas dos soldados de Ervígio. Mas a saudade do lar paterno punha uma secreta mágoa no coração de Eulália, horas esquecidas espreitando, do mirante do castelo, o horizonte mudo, para lá da serra de Agra.
Certo dia, Eulália descobriu um vulto caminhando em direcção ao castelo. Desceu a correr, com o coração batendo tão forte que lhe estremecia a túnica alvíssima.
Chegada à porta larga, abriu-a e viu na sua frente o irmão Gondemaro. Sem hesitar, correu para ele.
— Trazeis-me notícias de meu pai?
Ele sorriu e falou num ar descansado:
— Recebi-as ontem ao anoitecer e pus-me a caminho logo de manhã.
— E que novas me trazeis?
— Vosso pai enviou esta resposta: «Se me derem um neto varão, perdoar-lhes-ei a fuga e a desobediência e nomearei Egica meu sucessor. Se me não derem um neto no prazo de um ano, esquecerei que tive uma filha chamada Eulália!»
A jovem uniu as mãos em muda acção de graças. O seu rosto transfigurou-se quase e a tremura das pernas obrigou-a a sentar-se numa pedra da entrada. Entretanto Egica chegava de um passeio a cavalo e, vendo o monge, correu também para ele.
— Muito me alegro em ver-vos!
Eulália não lhe deu tempo a prosseguir. Precisava exteriorizar a sua felicidade:
— Egica! Meu pai perdoa-nos se lhe dermos um neto dentro de um ano e nomeia-te teu sucessor!
Egica olhou a jovem esposa com enleio.
— Querida! Teremos de pedir a Deus que o filho que esperamos seja um rapaz! Nascerá nesta serra de Agra e será um dia rei dos Visigodos!
Como num eco, o monge ajuntou:
— Que Deus vos oiça!
Eulália voltou a olhar o horizonte, que desta vez parecia mais claro, menos fechado. Egica passou-lhe o braço pelos ombros e beijou-a nos cabelos. Esqueceram por momentos a presença do monge. E quando se lembraram dele, viram-no já, amparado ao seu bordão, a caminho do Mosteiro Máximo.
Eles riram, contentes.
Egica murmurou:
— Pobre velho! Nem sequer lhe agradecemos! E deve ser-lhe difícil, esta viagem a pé.
Eulália encostou a sua linda cabeça ao braço forte do marido.
— Levar-lhe-emos o nosso filhinho logo que nasça, para que ele o abençoe!
Ele acariciou-lhe os cabelos.
— E depois?
Eulália suspirou fundo:
— Depois... depois...
A voz sumiu-se-lhe quase, de emoção:
— Depois... partiremos, de novo, mas desta vez… sem medo de sermos perseguidos pelos soldados do rei Ervígio !

- Gentil Marques, Lendas de Portugal

Medulio. El Norte contra Roma


Medulio. El Norte contra Roma se recrean las guerras de cántabros, astures y galaicos contra el invasor romano y su heroica resistencia final en el mítico monte Medulio. A través del cántabro Laro y del galaico Camalo el lector se sumerge en las costumbres y la civilización del Norte de Hispania. Pero también se presenta la visión romana de la conquista por medio de los recuerdos del joven Décimo Junio Bruto. Dos mundos muy diferentes (o no tanto) que aportan cada uno sus mitos y su forma de ser y que configuraron a partir de entonces las características del Norte. Roma impuso su visión del mundo, ciertamente civilizadora, pero no pudo acabar totalmente con lo que ya existía. Como dice el romano Décimo en la novela: “Nunca podrá la fiera del Norte ser domesticada. Su lugar está fuera de nuestro mundo de orden. Aguardará su momento, permanecerá oculta en el territorio de los sueños, del mito o la leyenda. Vivirá de un modo paralelo para completarnos, para recordarnos otro mundo y decirnos que la razón de Roma puede necesitar de la sinrazón de lo desconocido y lo ajeno.

Um livro de Fernando Lillo Redonet.

Recomenda-se

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O dia do Medulio

Monte Medulio - Serra de Arga

Francisco Silveira, em Mapa Breve da Lusitania Antiga, fala de um episódio ocorrido por volta de 22 a.C., em que os galaicos tendo perdido a batalha contra os romanos, preferiram o suicídio à escravatura. Na parte mais alta da Serra, na freguesia de S. Lourenço da Montaria, os agricultores comentavam que, no arado, ainda a terra mostrava o sangue de tais homens, mulheres e crianças.

O día do Medulio
con sangue quente e roxa
mercámo-lo dereito
á libre honrada chouza!

El día del Medulio,
con sangre caliente y roja,
compramos el derecho
a la libre, honrada choza!


- Ramón Cabanillas, En pé!

Contributo


Retratos a óleo de D. Sebastião - Colecções particulares
(Contributo para o "Núcleo de Amigos do Elmo de D. Sebastião")

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Templo de S. João de Longos Vales

Longos Vales terá correspondido na sua origem a parte da paróquia sueva da diocese de Tui, denominada "Lucoparre" ou "Loncoparre".
À instituição visigótica ali existente, sucedeu o mosteiro dos cónegos regrantes de Santo Agostinho, fundado pelo rei D. Afonso Henriques.
Cerca de 1199, D. Sancho I coutou o mosteiro em sinal de apreço pelos serviços que lhe prestaram o prior D. Pedro Pires e os seus cónegos, construindo à sua custa a torre e fortaleza de Melgaço.
Nas Inquirições de 1258, em que se diz que o rei não detinha o padroado da igreja, encontrava-se enquadrada neste couto a freguesia de Santo André da Torre. Em 1371 D. Pedro confirmou-lhe os privilégios do couto.
Por volta de 1520, o direito de apresentação pertencia ao Papa, estando-lhe anexas Barbeita e Santa Maria de Cales.
Em 1539, Paulo III concedeu o priorado a D. Duarte, filho natural de D. João, que faleceu em 11 de Novembro de 1543.
No registo da avaliação dos benefícios da comarca eclesiástica de Valença do Minho, a que se procedeu entre 1545 e 1549, no arcebispado de D. Manuel de Sousa, Longos Vales tinha como anexa Santa Eugénia de Barbeita.
Em 1551, o mosteiro foi anexado ao Colégio da Companhia de Jesus de Coimbra por bula do Papa Júlio III, tendo-lhe sido anexadas as igrejas de Cambeses, Messegães, Pias e Sago.
Passou então a vigairaria da apresentação deste Colégio até à extinção da Companhia. Os bens passaram depois para a Universidade de Coimbra.
Pertence à Diocese de Viana do Castelo desde 3 de Novembro de 1977.

(fonte: TT)


Enquadramento
Rural, isolado, integração harmónica na periferia da povoação, tendo adossado o edifício do antigo Convento de Longos Vales. Possui amplo adro, parcialmente delimitado por muro em alvenaria de granito, pontuado por árvores de grande porte, envolvido por construções de vocação agrícola, com pavimento em terra batida, com cubo granítico e com lajes de granito a contornar parcialmente as fachadas E. e N. da igreja. No sector N. e NE. do adro, existe uma necrópole de 4 sepulturas escavadas na rocha, de contorno subrectangular e antropomórfico, detectada aquando das obras de demolição da Capela de Santa Catarina, bem como 4 sarcófagos e um conjunto de 8 tampas sepulcrais, monolíticas, 7 planas e uma de duas águas, lisas e algumas insculturadas, sendo uma com cruz florenciada de pé alto, outra em cruz semelhante inserta num círculo e uma terceira com duas espadas e epitáfio, proveniente do pavimento da antiga sacristia. Em frente do portal principal da igreja, ergue-se um cruzeiro.

Descrição
Planta longitudinal, composta por nave única, rectangular, capela-mor, de três tramos, o último semicircular, com torre sineira, quadrangular, e sacristia, rectangular, adossadas à fachada lateral N.. Volumes escalonados, com coberturas diferenciadas em telhados de duas águas na igreja, de três na sacristia e de quatro na torre sineira. Fachadas em alvenaria de granito aparente, percorridas por embasamento avançado e terminadas em cornija, tendo ainda cruzes latinas de cantaria, sobre plintos paralelepipédicos, coroando os cunhais e no remate das empenas. Fachada principal, orientada a O. e terminada em empena, coroada por cruz decorada com custódia e a data de 1990 inscrita no plinto, com contrafortes nos cunhais, os quais são superiormente salientes e têm consola que suporta as cruzes; é rasgada por portal de verga recta, moldurado, com chave saliente, encimado por frontão triangular, sobrepujado por rosácea circular, com moldura de capialço e orla torada. Fachadas laterais, rasgadas por vãos confrontantes, abrindo-se na nave portal de verga recta, moldurado, de fecho saliente, encimado por cornija, o da fachada S. sublinhado por duas mísulas de suporte de antigo alpendre, e duas janelas rectangulares laterais, com moldura de capialço. A N., a torre sineira, parcialmente integrada na fachada, tem três registos, abrindo-se no segundo frestas a N., E. e O., e no terceiro, sineira de três ventanas, em arco de volta perfeita, albergando duas sinetas de metal; a sacristia é rasgada a O. por portal em arco de volta perfeita, sobre impostas e tímpano liso, e a N. por fresta de topo semicircular, moldura com capialço e enquadrada por arco de volta perfeita. A capela-mor, com aparelho em fiadas pseudo-isódomas, alguns silhares inscritos com siglas alfabéticas, termina em cornija biselada sobre cachorros esculpidos com enrolamentos, figuras antropomórficas e zoomórficas. No 1º tramo, possui contrafortes rectangulares e apresenta, exteriormente, a S., algumas irregularidades na zona de ligação do templo à antiga ala conventual; o 2º tramo, tem adossado quatro colunas, sobre plintos e com capitéis esculpidos com acantos e figuras zoomórficas, bastante volumosos. No pano central rasga-se fresta, esguia e alta, abrindo para o interior, enquadrada por arco de volta perfeita, de três arquivoltas, a segunda enchaquetada e a exterior em toro, sobre colunelos com capitéis esculpidos com elementos fitomórficos e antro e zoomórficos, tendo no tímpano leque de enxaquetado. Na fachada posterior da sacristia, abre-se pequena fresta de perfil curvo. INTERIOR em alvenaria de granito aparente, com pavimento lajeado e tecto em madeira, de perfil curvo, sobre cornija saliente, tendo, centralmente, cartela elipsoidal, com moldura fitomórfica, pintada com a imagem de São João Baptista. Coro-alto assente em arco abatido, em madeira, com guarda em balaustrada de madeira, acedido no lado do Evangelho por porta em arco de volta perfeita, através da torre sineira, e por escada de dois lanços, colocada no lado da Epístola. No sub-coro, com guarda-vento de madeira, tem a ladear o portal, no lado da Epístola, pia de água benta, e, no do Evangelho, baptistério sobrelevado por degrau, cerrado por grade de ferro forjado, com motivos geométricos e vegetalistas, com pia baptismal de aresta boleada e taça decorada com motivos geométricos. Lateralmente, do lado Evangelho, dispõem-se três retábulos, os dois que ladeiam a porta travessa em talha policroma a branco, azul, marmoreados azuis, laranja, rosa e dourado, de planta recta e um eixo, e um em madeira encerada, de planta recta e três eixos, e dois confessionários, articuladas, em madeira; no lado da Epístola, surge um retábulo de talha policroma, de planta recta e um eixo, semelhante ao oposto, dois confessionários, articuladas, em madeira, também iguais, pia de água benta, de rebordo boleado a ladear a porta travessa, e púlpito de bacia semicircular, com molduras escalonadas em toro e escócia, sobre mísula de recorte concheado, e guarda em balaustrada de madeira, sobrepujado por sanefa em talha policroma. No topo da nave, dispõem-se, de ângulos, dois retábulos colaterais, em talha policroma a branco, rosa, azul e dourado, de planta recta e um eixo. Arco triunfal, de volta perfeita, de três arquivoltas, duas delas sobre colunas, as exteriores com friso geométrico a meio, e a exterior do lado da Epístola tendo em baixo relevo a figura de São Pedro, com as chaves penduradas ao peito, de capitéis esculpidos; é encimado por fresta em arco de volta perfeita de três arquivoltas. Capela-mor, sobrelevada por um degrau, lajeada, abrindo-se, do lado do Evangelho, porta em arco quebrado para a sacristia. Cobertura em abóbada de berço nos dois primeiros tramos e em quarto de esfera no terceiro, cada um deles marcado por arcos torais assentes em colunas com unhão e escócia nas bases e de capitéis decorados com acantos e figuras zoomórficas e antropomórficas bastante volumosos.

Descrição Complementar
O cruzeiro do adro apresenta um soco de planta quadrangular, constituído por quatro degraus, sobre o qual assenta plinto paralelepipédico, com as faces de almofadas côncavas insculturadas, cornija e moldurada saliente, encimado por fuste, monolítico de secção circular, estriado, com estrias mais apertadas na metade inferior, sobrepujado por capitel coríntio que suporta cruz latina, moldurada, de secção quadrangular. No interior, a escada do sub-coro de acesso ao coro, é pétrea no primeiro lanço e em madeira no segundo. A pia de água benta do sub-coro, tem taça circular, exteriormente decorada com torçal a meio e motivos tipo cabeças de cravos, sobre pé paralelepipédico. As portas da nave são encimadas por sanefa em talha policroma. Os dois primeiros retábulos laterais, em disposição confrontante, são semelhantes, apresentando planta recta e um eixo definido por duas pilastras pintadas a marmoreados fingidos a azul, assentes em plintos paralelepipédicos decorados com motivo fitomórfico, coroadas por urnas; ao centro, abre-se nicho em arco de volta perfeita, envolvido por motivo festonado, e com voluta pintada na chave, albergando painéis pintados, o do lado do Evangelho dedicado às Almas, tendo superiormente a Santíssima Trindade, e o oposto com flagelação de São Sebastião; ático em espaldar pintado de azul com cartela central entre elementos fitomórficos, sobrepujado por acantos relevados, e terminado em frontão de volutas interrompido por acanto recortado; sotobanco com painel pintado a marmoreado fingido rosa. Altar tipo urna com frontal ornado com elementos vegetalistas. O segundo retábulo lateral do Evangelho, em talha policroma a branco, azul, rosa e dourado, tem planta recta e um eixo, definido por duas colunas de fuste canelado no terço inferior, assentes em plintos paralelepipédicos, decorados com motivos fitomórficos, e de capitéis coríntios, coroados por urnas; ao centro, abre-se nicho, alteado, integrado já na estrutura do ático, em espaldar rectangular, terminado por cornija sobreposta por folha de acanto relevada e de onde parte festão; interiormente, o nicho é pintado de azul com firmamento e possui mísulas com imaginária; sotobanco com apainelados ornados por grinalda, tendo ao centro sacrário tipo templete, terminado em cúpula gomeada e pinha, e porta pintada com pelicano. Altar tipo urna com frontal decorado com motivos vegetalistas. O terceiro retábulo lateral do Evangelho, em madeira envernizada, tem planta recta e três eixos de apainelados sobrepostos por mísulas com imaginária, o central sensivelmente mais avançado e de perfil polilobado ladeado por fragmentos de pilares terminados em pináculos de cogulhos, e os laterais de arco apontado; termina em cornija, formando empena sobre o painel central e recta sobre os laterais, com cogulhos, sendo coroado ao centro por cruz latina. Altar tipo urna, com moldura no frontal. Os retábulos colaterais, semelhantes, têm planta recta e um eixo, definido por duas pilastras com fuste de almofada côncava, pintada de rosa no lado do Evangelho e de azul no da Epístola, sobreposta por elementos fitomórficos, assentes em plintos paralelepipédicos, com face frontal ornada de elementos fitomórficos, suportando o entablamento; ao centro, abre-se nicho de perfil curvo, com chave em acanto e interiormente pintado com firmamento e albergando imaginária sobre mísulas; ático em espaldar, ornado com cartela e elementos vegetalistas, terminado em cornija contracurvada, sobreposta por motivos dourados vazados, e, no alinhamento das pilastras, fogaréus; sotobanco formado por apainelados. Altar tipo urna, com frontal ornado por cartela central de onde partem festões. Sacristia rebocada e caiada, com pavimento lajeado e tecto tipo "saia e camisa", em madeira, possuindo, dois armários encastrados nas paredes e grande arcaz, em castanho.

Época Construção
Séc. XII / XIII / XVI / XVII / XIX / XX

Cronologia
Séc. XII - Fundação do mosteiro no tempo de D. Afonso Henriques pelos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho;
1197 - D. Sancho I doutou e coutou-a devido aos serviços prestados pelo prior de D. Pedro Pires na causa nacional;
Séc. XII, finais / Séc. XIII, inícios - reconstrução da igreja; posteriormente passou a ser administrada por comendatários;
Séc. XV / XVI - os comendatários usufruíam as rendas e extraviavam-lhe os bens, emprazando-os por diminutos foros;
1540 - vagando a comenda, D. João III deu-a ao Infante D. Duarte, que a possuiu nos 3 anos seguintes antes de morrer;
1548 - a Congregação de Santa Cruz de Coimbra requereu a posse do convento; o cardeal D. Henrique metendo-se de permeio, conseguiu a renúncia do prior Manuel Godinho e anexou-o ao padroado da Companhia de Jesus, do Colégio de Coimbra; da quinta de São Fins, os monges tinham apenas a obrigação de dar para a Companhia o azeite para a lâmpada de alumiar o Santíssimo, dois cabaços de vinho para as missas e dois alqueires de trigo para o pároco;
1551 - Breve do Papa Júlio III confirmando a posse do mosteiro pela Companhia;
1558 - data da construção lateral;
1585 - data inscrita em silhar colocado sobre a rosácea da frontaria;
Séc. XVII - reforma da igreja;
1705 - o vigário recebia 100$000 e o coadjutor 70$000; rendia, juntamente com o de São Fins, 4 mil cruzados;
1758, 6 Maio - segundo as Memórias Paroquiais, a paróquia ficava fora do lugar e junto às casas de residência dos padres da Companhia de Jesus; a igreja, de uma nave, tinha orago de São João Baptista e tinha três altares: o altar-mor, onde estava o Santíssimo Sacramento e as imagens de um Santo Crucifixo muito "bem avultada", a de São João Evangelista e a de Santo Inácio de Loiola, do lado do Evangelho, e a de São Brás e de São Francisco Xavier, no da Epístola; no altar colateral do Evangelho, dedicado a Nossa Senhora, estava a imagem de Nossa Senhora da Purificação, e o colateral da Epístola era dedicado a Santo António; na Igreja não existiam Irmandades; o pároco era vigário anual e tinha coadjutor, ambos apresentados anualmente pelo reverendo superior de São Fins, como procurador do reitor de Coimbra da Companhia de Jesus; a freguesia rendia para o vigário 92$000 e para o coadjutor 30$000 um ano por outro;
1759, 12 Fevereiro - os Padres da Companhia foram presos e enviados para Braga e depois para Lisboa; 3 Setembro - expulsão da Companhia de Jesus, revertendo os seus bens para o erário régio;
1774, 4 Julho - provisão de D. José incorporando todos os bens da extinta Companhia de Jesus no património da Universidade de Coimbra, que assumiu a sua administração; o visitador da Universidade de Coimbra refere que a freguesia era grande, com 496 fogos, tendo uma igreja com residência de Jesuítas, colégio e Quinta; a igreja era grande, de cantaria e bem conservada, com a capela-mor pequena e mais antiga, tendo um retábulo antigo, bem conservado e dourado, com um painel pintado e um Crucifixo; o tecto era de abóbada e o pavimento de cantaria; a nave tinha dois altares toscos, com tábuas mal unidas e com pinturas grosseiras, tendo tecto de madeira de castanho, novo, e pavimento de cantaria; o coro era amplo; para N., tinha uma torre com dois sinos e a sacristia era baixa e escura, mandando-se fazer uma janela; não existiam casas para o pároco, mas existiam umas pequenas para o coadjutor; o Passal pouco rendia; a Universidade recebia os dízimos da freguesia e apresentava o cura, devendo fazer obras em toda a igreja, pagar 10$000 réis de côngrua ao padre e 8$000 a coadjutor e pagar ao arcebispo $714 réis; o visitador mandou levantar a planta do colégio, que tinha um amplo corredor com uma sala, cinco cubículos, refeitório e cozinha, tendo contíguas a abegoaria, dois celeiros grandes, uma adega, armazém de azeite, lagar de vinho e casas para o gado e moços; estava bastante arruinado, sobretudo nas coberturas, deixando o visitador a obra a lanços; a Quinta era constituída por terras de milho, vinha, olivais, carvalhos e castanheiros;
1798 - feitura de quatro confessionários, dois de castanho e dois de pinho;
1834 - a igreja passou a paroquial;
1835, 5 Maio - decreto incorporando nos Bens Próprios Nacionais os bens pertencentes à Universidade de Coimbra, que continuava, no entanto, a usufruir dos seus rendimentos;
1844 - fundição de sino da torre, pelo mestre sineiro de Monção, de sobrenome Santos;
1848, 21 Novembro - decreto delimitando como bens da Universidade de Coimbra apenas os edifícios estritamente necessários para o seu funcionamento, situados em Coimbra;
1900 - data inscrita no acrotério da cruz que remata a empena da frontaria;
1942 - colocação do sacrário, por acção da benemérita Maria Amélia Fernandes;
1954 - colocação do retábulo de Nossa Senhora de Fátima, por acção dos beneméritos Fraternidade Barroso Amorim e Joaquim Amorim.

Tipologia
Arquitectura religiosa, românica, maneirista e neoclássica. Igreja de planta longitudinal composta por nave única, seiscentista, e capela-mor de três tramos, o último semicircular, românica, da 1ª fase do foco do Alto Minho, interiormente cobertas com tecto de madeira e abóbada de berço e quarto de esfera, respectivamente, com torre sineira e sacristia adossada à fachada lateral esquerda. Fachada principal terminada em empena e rasgada por portal de verga recta, moldurado, encimado por frontão triangular, sobrepujado por rosácea circular. Fachadas laterais semelhantes, terminadas em cornija e rasgadas por porta travessa de verga recta, com moldura encimada por cornija, e duas janelas rectangulares, de capialço. Cabeceira com contrafortes e zona semicircular ritmada por colunas com capitéis de decoração fitomórfica, zoomórfica e antropomórfica, terminada em cornija biselada sobre modilhões igualmente esculpidos. No interior, possui coro-alto, púlpito e retábulos de talha policroma neoclássicos e um neogótico.

Características Particulares
Igreja conventual conservando a capela-mor românica, de três tramos interiores marcados por arcos torais e exteriormente apenas com dois, de volumes escalonados, marcados por contraforte no primeiro e o outro por colunas. Segundo Carlos A. F. Almeida, a potência da sua arquitectura, a veemência, volumosa e a exuberância da sua escultura nos cachorros, capitéis, quer exteriores, quer interiores, e bases das colunas, fazem da cabeceira da igreja um dos cumes do românico nacional, constituindo-se um espaço onde há um grande delírio de formas, a que o granito empresta vida especial. As quatro colunas externas da capela-mor apresentam uma iconografia de particular relevância pelo valor iconográfico dos seus capitéis. Segundo o mesmo autor, o capitel historiado com harpa e centauro pronto a disparar o arco retesado é único no nosso românico. Na capela-mor, destaca-se ainda o baixo-relevo representando São Pedro na coluna interior do lado da Epístola, a qual poderá constituir um reaproveitamento e provir do primitivo portal principal. A solução adoptada na organização do templo e na sua altura é a mesma que encontramos em Sanfins de Friestas, com a qual mantém muitas semelhanças também a nível decorativo, tendo, igualmente, grande similitude com a Igreja de Tominho, na Galiza, na esteira da sua matriz galega. O corpo da igreja, reformado no Séc. XVII, apresenta grande sobriedade nos vãos, sendo o portal da fachada principal encimado por frontão triangular e os das fachadas laterais por cornija recta. A torre sineira deverá ser de construção medieval, dado o tipo de fenestração. A pia de água benta junto ao portal axial, de pé, e a pia baptismal deverão datar do Séc. XVI, realçando-se ainda a bacia do púlpito, circular com base côncava formando concheado, colocado no lado da Epístola. Nos retábulos, muito repintados e transformados, destacam-se os painéis com representação das Almas e o martírio de São Sebastião. No adro existem sepulturas escavadas na rocha, de contorno subrectangular e antropomórfico, sarcófagos e tampas sepulcrais, algumas insculturadas, medievais.

Materiais
Estrutura em cantaria de granito aparente; paredes interiores da sacristia rebocadas e pintadas; coro-alto, guarda do púlpito, 2º lance de escadas para o coro, portas e caixilharia em madeira; 1º lance de escadas para o coro, bacia do púlpito em cantaria de granito; retábulos em talha policroma e em madeira envernizada; confessionários em madeira envernizada; janelas com grades de ferro e vidros simples; pavimentos em lajes graníticas e soalhado; tecto de madeira na nave e sacristia e cobertura em abóbada pétrea na capela-mor; sinetas de metal; cruzeiro em granito; cobertura de telha.

(fonte: IHRU)

A doçura da Luz