sexta-feira, 23 de julho de 2010

Vibra clarim, vibra ...


Vibra, clarim, cuja voz diz.
Que outrora ergueste o grito real
Por D. João, Mestre de Aviz,
E Portugal!

Vibra, grita aquele hausto fundo
Com que impeliste, como um remo,
Em El-Rei D. João Segundo
O Império extremo!

Vibra, sem lei ou com lei,
Como aclamaste outrora em vão
O morto que hoje é vivo — El-Rei
D. Sebastião!

Vibra chamando, e aqui convoca
O inteiro exército fadado
Cuja extensão os pólos toca
Do mundo dado!

Aquele exército que é feito
Do quanto em Portugal é o mundo
E enche este mundo vasto e estreito
De ser profundo.

Para a obra que há que prometer
Ao nosso esforço alado em si,
Convoco todos sem saber
(É a Hora!) aqui!

Os que, soldados da alta glória,
Deram batalhas com um nome,
E de cuja alma a voz da história
Tem sede e fome.

E os que, pequenos e mesquinhos,
No ver e crer da externa sorte,
Convoco todos sem saber
Com vida e morte.

Sim, estes, os plebeus do Império;
Heróis sem ter para quem o ser,
Chama-os aqui, ó som etéreo
Que vibra a arder!

E, se o futuro é já presente
Na visão de quem sabe ver,
Convoca aqui eternamente
Os que hão de ser!

Todos, todos! A hora passa,
O gênio colhe-a quando vai.
Vibra! Forma outra e a mesma raça
Da que se esvai.

A todos, todos, feitos num
Que é Portugal, sem lei nem fim,
Convoca, e, erguendo-os um a um,
Vibra, clarim!

E outros, e outros, gente vária,
Oculta neste mundo misto.
Seu peito atrai, rubra e templária,
A Cruz de Cristo.

Glosam, secretos, altos motes,
Dados no idioma do Mistério —
Soldados não, mas sacerdotes,
Do Quinto império.

Aqui! Aqui! Todos que são.
O Portugal que é tudo em si,
Venham do abismo ou da ilusão,
Todos aqui!

Armada intérmina surgindo,
Sobre ondas de uma vida estranha.
Do que por haver ou do que é vindo —
É o mesmo: venha!

Vós não soubesses o que havia
No fundo incógnito da raça,
Nem como a Mão, que tudo guia,
Seus planos traça.

Mas um instinto involuntário,
Um ímpeto de Portugal,
Encheu vosso destino vário
De um dom fatal.

De um rasgo de ir além de tudo,
De passar para além de Deus,
E, abandonando o Gládio e o escudo,
Galgar os céus.

Titãs de Cristo! Cavaleiros
De uma cruzada além dos astros,
De que esses astros, aos milheiros,
São só os rastros.

Vibra, estandarte feito som,
No ar do mundo que há de ser.
Nada pequeno é justo e bom.
Vibra a vencer!

Transcende a Grécia e a sua história
Que em nosso sangue continua!
Deixa atrás Roma e a sua glória
E a Igreja sua!

Depois transcende esse furor
E a todos chama ao mundo visto.
Hereges por um Deus maior
E um novo Cristo!

Vinde aqui todos os que sois,
Sabendo-o bem, sabendo-o mal,
Poetas, ou Santos ou Heróis
De Portugal.

Não foi para servos que nascemos
De Grécia ou Roma ou de ninguém.
Tudo negamos e esquecemos:
Fomos para além.

Vibra, clarim, mais alto! Vibra!
Grita a nossa ânsia já ciente
Que o seu inteiro vôo libra
De poente a oriente.

Vibra, clarim! A todos chama!
Vibra! E tu mesmo, voz a arder,
O Portugal de Deus proclama
Com o fazer!

O Portugal feito Universo,
Que reúne, sob amplos céus,
O corpo anónimo e disperso
De Osíris, Deus.

O Portugal que se levanta
Do fundo surdo do Destino,
E, como a Grécia, obscuro canta
Baco divino.

Aquele inteiro Portugal,
Que, universal perante a Cruz,
Reza, ante à Cruz universal,
Do Deus Jesus.


- Fernando Pessoa, 5º Império

quarta-feira, 21 de julho de 2010

terça-feira, 20 de julho de 2010

Lenda do Milagre das Rosas

Esta é uma das mais conhecidas lendas portuguesas que enaltece a bondade da rainha D. Isabel para com todos os seus súbditos, a quem levava esmolas e palavras de consolo.

Conta a história que um nobre despeitado informou o rei D. Dinis que a rainha gastava demais nas obras das igrejas, doações a conventos, esmolas e outras acções de caridade e convenceu-o a por fim a estes excessos.

O rei decidiu surpreender a rainha numa manhã em que esta se dirigia com o seu séquito às obras de Santa Clara e à distribuição habitual de esmolas, e reparou que ela procurava disfarçar o que levava no regaço.

Interrogada por D. Dinis, a rainha informou que ia ornamentar os altares do mosteiro ao que o rei insistiu que tinha sido informado que a rainha tinha desobedecido às suas proibições, levando dinheiro aos pobres.

De repente e mais confiante D. Isabel respondeu:
"Enganais-vos, Real Senhor. O que levo no meu regaço são rosas..."

O rei irritado acusou-a de estar a mentir: como poderia ela ter rosas em Janeiro? Obrigou-a, então, a revelar o conteúdo do regaço.

A rainha Isabel mostrou perante os olhares espantados de todos, o belíssimo ramo de rosas que guardava sob o manto.

O rei ficou sem palavras, convencido que estava perante um fenómeno sobrenatural e acabou por pedir perdão à rainha que prosseguiu na sua intenção de ir levar as esmolas.

A notícia do milagre correu a cidade de Coimbra e o povo proclamou santa a Rainha Isabel de Portugal.

domingo, 18 de julho de 2010

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Cavaleiro da Eternidade

Herveu de Glanvill não quis entrar na praça conquistada.

Desembaraçou-se das armas, desceu lentamente o monte, por entre cinzas e escombros.

As riquezas não lhe interessavam.
Uma angústia vaga e indefinível sufocava-lhe a garganta.

Caminhou sozinho e a cada passo que dava, ia entrando no seu labirinto de sonhos e visões.

A missão estava cumprida, então porque experimentava aquele vazio?

Olhou Lisboa mais uma vez.
Era inacreditavelmente bela.
Fechou os olhos.
Era a cidade mais bela do mundo, e era sua, e por isso não a conseguia olhar, nem tocar, nem imaginar.
A fraqueza da cidade, a sua suavidade e delicadeza eram-lhe insuportáveis.
O seu sofrimento era-lhe contíguo e irmão, intolerável.

Caminhou sozinho e a cada passo tropeçava em cadáveres.

Caiu, levantou-se, sentiu um exército de mortos cavalgando sob o seu comando.

Olhou a toda a volta. Pareceu-lhe haver pedaços de ouro no rio, âmbar e madrepérola a reluzir nas encostas. Pareceu-lhe que nenhum tesouro da Terra o poderia satisfazer.

Pareceu-lhe ter regressado à juventude, à manhã chuvosa e fria de Glanvill em que se armou cavaleiro, depois de ter velado as armas durante toda a noite, ardendo em paixão mística e em febre e em raiva e em desespero.

Sentiu-se um cavaleiro da Eternidade, um irmão de Cristo, uma sombra errante, um anjo proscrito e vagabundo, um eremita confuso e enlouquecido, um homem, um homem sozinho.

Chorou.

Caminhou, e a cada passo que dava avançava montanhas e mares, cruzava reinos e cidades.
Chegou a Edessa, a Antioquia, a Jerusalém, e as cidades rendiam-se-lhe, mas ele prostrava-se a seus pés.

Pensou em Tarsis, a poetisa-guerreira, o seu anjo da guarda.
E o seu coração golpeou mais forte.
E uma música de flautas abrasou as colinas.
E um bando de gaivotas despedaçou o céu.
Pensou em Tarsis, a prostituta, a princesa que lhe fora prometida.
Não nas infantas com que sonharia de direito, mas com quem não sonhava de facto.
Tarsis era o seu facto, o seu sonho.

Caminhou como sonâmbulo, mergulhado num mundo fantástico, e quando chegou ao acampamento, Tarsis esperava-o como se sempre o tivesse esperado, pegou-lhe na mão e ele não precisou de acordar.
- 1147, O Tesouro de Lisboa

quarta-feira, 14 de julho de 2010

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Mais uma partida ...

De (re)encontro com o Passado

Em Lembrança, Homenagem e Gratidão

Descemos a colina. Tu levas um ramo de
oliveira na mão. Sobre as estrelas do teu
sorriso, a roupa branca. Sobre o cruto da
montanha a morada dos deuses.

Além, a casa lacustre. Sobre uma estaca,
O nosso Gato. Castanheiros pesam
O tempo. Tempo primordial, que este
livro desperta em nós.

Na areia dos mapas escreves o teu nome.
Os ventos do norte chegam e levam-no
Pelos quatro cantos da terra: Palavra
Indecifrável, silenciosa como a eternidade.


- Luís Costa

domingo, 11 de julho de 2010

Chanson de Roland

I
Carles li reis, nostre emper[er]e magnes
Set anz tuz pleins ad estet en Espaigne:
Tresqu'en la mer cunquist la tere altaigne.
N'i ad castel ki devant lui remaigne;
Mur ne citet n'i est remes a fraindre,
Fors Sarraguce, ki est en une muntaigne.
Li reis Marsilie la tient, ki Deu nen aimet;
Mahumet sert e Apollin recleimet:
Nes poet guarder que mals ne l'i ateignet. aoi.

II
Li reis Marsilie esteit en Sarraguce.
Alez en est en un verger suz l'umbre;
Sur un perrun de marbre bloi se culchet,
Envirun lui plus de vint milie humes.
Il en apelet e ses dux e ses cuntes:
«Oëz, seignurs, quel pecchet nus encumbret:
Li emper[er]es Carles de France dulce
En cest païs nos est venuz cunfundre.
Jo nen ai ost qui bataille li dunne,
Ne n'ai tel gent ki la sue derumpet.
Cunseilez mei cume mi savie hume,
Si m(e) guarisez e de mort et de hunte.»
N'i ad paien ki un sul mot respundet,
Fors Blancandrins de Castel de Valfunde.

III
Blancandrins fut des plus saives paiens:
De vasselage fut asez chevaler,
Prozdom i out pur sun seignur aider;
E dist al rei: «Ore ne vus esmaiez!
Mandez Carlun a l'orguillus, (e) al fier,
Fedeilz servises e mult granz amistez.
Vos li durrez urs e leons e chens,
Set cenz camelz e mil hosturs muers,
D'or e d'argent .IIII.C. muls cargez,
Cinquante carre, qu'en ferat carier:
Ben en purrat luer ses soldeiers.
En ceste tere ad asez osteiet;
En France, ad Ais, s'en deit ben repairer.
Vos le sivrez a la feste seint Michel:
Si recevrez la lei de chrestiens,
Serez ses hom par honur e par ben.
S'en volt ostages, e vos l'en enveiez,
U dis u vint pur lui afiancer.
Enveiu[n]s i les filz de noz muillers:
Par nun d'ocire i enveierai le men.
Asez est melz qu'il i perdent le chefs,
Que nus perduns l'onur ne la deintet,
Ne nus seiuns cunduiz a mendeier.» aoi.

IV
Dist Blancandrins: «Pa[r] ceste meie destre
E par la barbe ki al piz me ventelet,
L'ost des Franceis verrez sempres desfere.
Francs s'en irunt en France la lur tere.
Quant cascuns ert a sun meillor repaire,
Carles serat ad Ais, a sa capele;
A seint Michel tendrat mult halte feste.
Vendrat li jurz, si passerat li termes,
N'orrat de nos paroles ne nuveles.
Li reis est fiers e sis curages pesmes:
De noz ostages ferat tre[n]cher les testes;
Asez est mielz, qu'il i perdent les testes,
Que nus perduns clere Espaigne, la bele,
Ne nus aiuns les mals ne les suffraites.»
Dient paien: «Issi poet il ben estre!»

V
Li reis Marsilie out sun cunseill finet:
Sin apelat Clarin (...) de Balaguet,
Estamarin e Eudropin, sun per,
E Priamun e Guarlan le barbet,
E Machiner e sun uncle, Maheu,
E Joüner e Malbien d'ultremer,
E Blancandrins, por la raisun cunter.
Des plus feluns dís en ad apelez:
«Seignurs baruns, a Carlemagnes irez;
Il est al siege a Cordres la citet.
Branches d'olives en voz mains porterez,
Ço senefiet pais e humilitet.
Par voz saveirs sem puez acorder,
Jo vos durrai or e argent asez,
Teres e fiéz tant cum vos en vuldrez.»
Dient paien: «De ço avun nus asez!» aoi.

VI
Li reis Marsilie out finet sun cunseill;
Dist a ses humes: «Seignurs, vos en ireiz;
Branches d'olive en voz mains portereiz,
Si me direz a Carlemagne, le rei,
Pur le soen Deu qu'il ait m(er)ercit de mei.
Ja einz ne verrat passer cest premer meis,
Que jel sivrai od mil de mes fedeilz,
Si recevrai la chrestiene lei,
[S]erai ses hom par amur e par feid;
S'il voelt ostages, il en avrat par veir.»
Dist Blancandrins: «Mult bon plait en avreiz.» aoi.

VII
Dis blanches mules fist amener Marsilies,
Que li tramist li reis de Suatilie;
Li frein sunt d'or, les seles d'argent mises.
Cil sunt muntez ki le message firent,
Enz en lur mains portent branches d'olive.
Vindrent a Charles ki France ad en baillie:
95 Nes poet guarder que alques ne l'engignent. aoi.

VIII
Li empereres se fait e balz e liez,
Cordres ad prise e les murs peceiez,
Od ses cadables les turs en abatied.
Mult grant eschech en unt si chevaler
D'or e d argent e de guarnemenz chers.
En la citet nen ad remes paien,
Ne seit ocis, u devient chrestien.
Li empereres est en un grant verger,
Ensembl od lui Rollant et oliver
Sansun li dux e anseis li fiers
Gefreid d anjou le rei gunfanuner,
E si i furent e gerin et gerers,
La u cist furent, des altres i out bien:
De dulce france i ad quinze milliers.
Sur palies blancs siedent cil cevaler,
As tables juent pur els esbaneier
E as eschecs li plus saive e li veill,
E escremissent cil bacheler leger.
Desuz un pin delez un eglenter
Un faldestoed i unt fait tut d or mer,
La siet li reis, ki dulce france tient.
Blanche ad la barbe e tut flurit le chef,
Gent ad le cors e le cuntenant fier,
S'est, kil demandet, ne l estoet enseigner.
E li message descendirent a pied,
Sil saluerent par amur e par bien.

IX
Blancandrins ad tut premereins parled,
E dist al rei: «Salvez seiez de Deu
Le glorius, que de[v]u[n]s aürer!
Iço vus mandet reis Marsilies, li bers:
Enquis ad mult la lei de salvetez;
De sun aveir vos voelt asez duner,
Urs e leuns e veltres enchaignez,
Set cenz cameilz e mil hosturs muez,
D'or e d'argent .IIII. cenz muls trussez,
Cinquante care, que carier en ferez;
Tant i avrat de besanz esmerez
Dunt bien purrez voz soldeiers luer.
En cest païs avez estet asez;
En France, ad Ais, devez bien repairer;
La vos sivrat, ço dit mis avoez.»
Li empereres tent (...) ses mains vers Deu,
Baisset sun chef, si cumencet a penser. aoi.


- La Chanson de Roland, I - IX (francês antigo)

A Cruz e o Signum

sábado, 10 de julho de 2010

A Lenda de Martim Moniz

O nome de Martim Moniz está ligado à conquista de Lisboa aos Mouros e figura na memória da cidade através de uma praça com o seu nome.

A lenda conta que D. Afonso Henriques tinha posto cerco à cidade, ajudado pelos muitos cruzados que por aqui passaram a caminho da Terra Santa.

O cerco durou ainda algum tempo, durante o qual se travavam pequenas investidas por parte dos cristãos.

Numa dessas tentativas de assalto a uma das portas da cidade, Martim Moniz enfrentou os mouros que saiam para repelir os cristãos e conseguiu manter a porta aberta mesmo a custo da sua própria vida.

O seu corpo ficou atravessado entre os dois batentes e permitiu que os cristãos liderados por D. Afonso Henriques entrassem na cidade. Ferido gravemente, Martim Moniz entrou com os seus companheiros e fez ainda algumas vítimas entre os seus inimigos, antes de cair morto.

D. Afonso Henriques quis honrar a sua valentia e o sacrifício da sua vida ordenando que aquela entrada passasse a ter o nome de Martim Moniz.

O povo diz que foi D. Afonso Henriques que mandou colocar o busto do herói num nicho de pedra, onde ainda hoje se encontra, junto à Praça de Martim Moniz.